Arte e transformação social

resumo do texto de Sueli de Lima – Coordenadora Geral da Casa das Artes (Mangueira / Vila Isabel)

Este texto nasce da intenção de compartilhar pensamentos que vêm sendo produzidos pela equipe da Casa das Artes a partir do trabalho que realizamos há seis anos em duas favelas cariocas com arte, cultura e educação. Em meio a tantos projetos sociais que utilizam a arte como ferramentas para transformações sociais atuando hoje no país, é necessário nos perguntarmos sob quais condições a arte é capaz de promover qualidade de vida e, ainda, qual a qualidade da arte que estamos produzindo.

Primeiro é preciso dizer que na Casa das Artes não temos como objetivo formar artistas, mas sim desenvolver pesquisas em arte; o que queremos é nos envolver em processos de criação capazes de nos desafiar e alterar nossas possibilidades no mundo. Acreditamos (e vivenciamos vários exemplos concretos nesse sentido) que através da arte é possível sermos mais felizes e reinventarmos caminhos individuais e sociais. Mas por quê? Como a arte pode colaborar para a construção da justiça social?

A experiência com a arte é algo avesso a classificações, inimiga implacável de todo pensamento dominador fechado a transformações. Trata-se de uma guardiã de possibilidades que não há como pré-determinar. Criar é necessariamente buscar alterar a ordem estabelecida, é buscar um outro real. Aí reside sua potência revolucionária.

Portanto, um dos caminhos emancipadores para as nossas vidas é o da fomentação de uma de cultura criadora. Ela pode nos instrumentalizar para a criação de saídas não estereotipadas para nossos destinos.

Se possuímos inúmeros problemas aparentemente sem soluções hoje no mundo, talvez estejamos precisando inventar novas formas de pensá-los. Não seria a experiência com a arte uma forma de garantirmos a liberdade de pensar, capaz de nos proporcionar saídas para o circulo vicioso que só tem nos trazido desesperança e sofrimento? Nos trabalhos que a Casa das Artes realiza já presenciamos a reinvenção de diversos destinos – diversos jovens descobrindo que são o que inventam para si.

Como desenvolver uma metodologia capaz de respeitar as diferenças culturais e simultaneamente construir um campo de múltiplos atravessamentos onde sujeitos e objetos se criam constantemente?

E ainda: como lidar com a cultura de massa sem preconceito, mas simultaneamente garantindo o debate crítico? Como lidar com a cultura de massa sem permitir que seus estereótipos estanquem os processos de criação e, conseqüentemente, a produção de subjetividades? Como garantir uma prática que garanta condições de influências mútuas entre as partes envolvidas?

Através das pesquisas que realizamos o morro “muda de cor”, redescobrimos espaços, histórias… Damos movimento às trocas culturais tão necessárias para nos mantermos vivos, abertos ao novo, abertos para nos tornarmos aquilo que ainda não somos mas perseguimos ser.

Talvez inspirados em Paulo Freire, ou talvez na antropofagia de Oswald de Andrade, estamos descobrindo no trabalho que realizamos a importância de uma metodologia capaz de fazer da pesquisa em arte um espaço de diálogo, de encontro, de transformação. Estamos interessados nas possibilidades de mútua influência, num espaço no qual nossos contornos culturais possam estar em constante ebulição, inacabado, inquieto. Esta atitude, temos aprendido, nos permite agir como serescriadores e não consumidores. Para isso não é preciso ser artista ou possuir uma formação em arte, é preciso usar o método artístico: ou seja, investigar sem métodos mas questionar tudo. Descobrir sempre, inquietar-se, não render-se.

Utilizando de forma livre, mas não descomprometida, os conhecimentos sistematizados pela sociedade, procurando construir um ambiente de trabalho capaz de manter o conhecimento em constante elaboração, é possível desenvolver um método capaz de dividir entre todos os participantes o poder sobre o trabalho. Valorizar a escuta e o diálogo é transformar a criação artística num espaço de encontro, de conversa. Através dessa estratégia, que gostamos de chamar de arte de escuta, é possível dar à cultura a dimensão de transformação social que perseguimos e produzir arte de qualidade.

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