Oficinas unem ‘desenho com luz’ e dança

Trabalho faz parte do projeto dos franceses Cathy Pollini e Guillaume Lauruol

 

Nesta técnica, o corpo é o pincel. Foto: Marko 93

Nesta técnica, o corpo é o pincel. Foto: Marko 93

O Teatro Funarte Cacilda Becker recebeu, nos dias 30 e 31 de março, oficinas dos franceses Cathy Pollini e Guillaume Lauruol, do Grupo Dezeo Ito, e Cyrille Brissot, parceiro do grupo. O tema foi a técnica de “light painting” (pintura com luz) e seu aproveitamento nas artes, especialmente na dança. O objetivo das oficinas é estimular a pesquisa da relação entre dança e novas mídias. O trabalho integram, juntamente com instalações e espetáculos, o conjunto de pesquisas da Companhia, que une dança, artes visuais e som eletroacústico.

As oficinas de “light painting” aplicado às artes estimularam a experimentação do relacionamento entre dança e novas mídias. Neste trabalho, 20 pessoas fizeram exercícios com o movimento, através de um programa de computador, que permite o desenho com a luz. Com a ferramenta, desenvolvida por Cyrille Brissot (França),  é possível pintar no espaço tridimensional, através de um foco de luz. A oficina da técnica, que inclui a apresentação do software, foi ministrada por Cyrille e Valecia Ribeiro, e Cathy desenvolveu exercícios práticos de aplicação da técnica na dança. Cada aluno levou, lanterna, abajur, celular ou outra fonte luminosa. Alunos da Escola Nacional de Circo da Funarte participaram das oficinas, onde fizeram diversos movimentos de acrobacia, registrados pela projeção da luz. O projeto incluiu, ainda os espetáculos “Saudade” (com Cathy) e “Sol” (com Guillaume) – apresentados na Mostra Nacional Funarte de Dança e Teatro – Mambembão 2012 – e ainda instalações. Os solos são criações de Catharine Pollini. O resultado da oficina foi apresentado no dia 1º de abril, integrado à apresentação que encerrou a Mostra.

“Esta é uma pesquisa de tecnologia para a interatividade e para a arte, na qual o pincel é a luz”, definiu Cyrille Brissot. “O princípio do ‘light painting’ é a integração das modalidades artísticas. A técnica já existia, mas não com ação em tempo real. Ela pode ser usada nas artes cênicas, pois também desenvolvi um método para conectar as ferramentas ao palco e aos intérpretes. Ele começou na Índia, em 1993, em um show, com grafiteiros. pensei em usar o ‘Light painting’ clássico, mas ele não funcionaria, porque não trabalha em tempo real. Como eu precisava de uma técnica que não existia, criei uma”, narra Cyrille.

Pincel luminoso no corpo– O vídeo “Pintar com a luz” contou a história do método, utilizado desde o começo da fotografia analógica (início do Séc XIX). Ao ser mantido aberto o obturador da câmera, obtinha-se efeitos visuais (superexposição), o que estabeleceu o método clássico do “light painting”, utilizado até por Picasso. Mas isto era algo limitado. Por exemplo: o resultado não podia ser visto na hora. Desde então, foram feitas muitas intervenções artísticas com luz, em galerias e nas ruas. Mas o novo software de Cyrille (que é músico) ampliou as possibilidades do recurso. “Ele funciona basicamente como um programa de desenho convencional. Mas permite intervenções no corpo e no ambiente e pode reproduzir movimentos, conectando-se, portanto, à dança”, disse Cyrille. Como exemplo, ele fez a luz traçar contornos de objetos.

Foi mostrada a experiência de Joséf Sediak, que registrou em imagens o deslocamento do corpo de um bailarino, em um efeito estroboscópico – “é a utilização do próprio tempo como expressão”, definiu Cyrille Brissot, mostrando ainda os trabalhos de Duchamp e de Giacomo Balla. Para Cathy Pollini e Brissot, o método é a união do gesto da dança com o da pintura. Mas, na nova técnica, o dançarino também pode contracenar com o registro do seu movimento, mudar a cor e o tamanho da imagem e de seus “rastros visuais”. Foi mostrada também a utilização de braceletes coloridos de neon, como pincéis de luz, pelos intérpretes de um espetáculo da Companhia. A “Interação corpo-imagem”, de Cyrille Brissot, exposta no MAM (BA), em 2010, foi exibida. Como Brissot é músico, é normal que tenha adaptado suas ferramentas ao som. Através de uma delas, a interação de luz, corpo e som é possível. O dispositivo faz com que oscilações de luz em imagens sejam geradas por sons.

Para Cathy Pollini, a técnica revela novos aspectos da arte coreográfica: “Aqui, usamos o corpo como pincel. Por outro lado, a dança é uma luz no corpo. Cada pessoa pode escolher onde focá-la. Podemos direcionar essa luz para os outros, inclusive. Ela é o símbolo da vida. Revela a vida, que é transformação – e o importante da arte é a sua força transformadora. Esta modalidade de dança, que utiliza a luz, provoca isso, ao obter diversos efeitos novos, como, por exemplo, o da aparição e desaparição”, comenta a coreógrafa e atriz. O software de Cyrille pode, além disso, fazer o desenho do corpo ir se desfazendo.

Integração das artes –Cada aluno comentou a experiência que teve com as oficinas. Uma delas pretende aplicar a técnica em um projeto de arte experimental itinerante, no interior do País. “Esta é apenas uma das possibilidades deste trabalho de integração das artes, que cada vez mais acontece. Classificamos muito as artes em modalidades separadas, mas vivemos num mundo com criação constante de novas tecnologias. Isso estimula a fusão de linguagens”, diz Guillaume Lauruol. Para ele, a cada dia o aproveitamento da tecnologia é mais fácil e democrático, o que facilita a integração das artes. “O contato com Cyrille foi um feliz encontro casual”, conclui o dançarino e ator.

A Cia. Dezeo Ito foi fundada em 2005, em Paris, por Lauruol. Este francês de nascimento, de origem circense, foi criado na África e adotou o Brasil como morada. O primeiro resultado da pesquisa de artes integradas da Companhia foi o solo “Scape” (2006), apresentado na Franca, Bélgica e Japão. Já em seu segundo espetáculo, “Sous les pneus la plage”, a soma de linguagens se ampliou, incorporando canto lírico, som eletrônico e ferramentas de interação multimídia. O trabalho foi apresentado em 2009, em Salvador. Depois dele, a Dezeo Ito começou a desenvolver novos projetos no Brasil e foi para o pequeno município de Itacaré (BA), em área de Mata Atlântica, em meio à floresta preservada. Lá eles fizeram sua primeira residência artística, voltada para o diálogo entre criadores. A Companhia foi premiada pel Monaco Dance Forum e o pelo festival Bains Numeriques #2 Engheins les Bains (França), além de contemplada com o Prêmio Funarte de Dança Klauss Vianna, (2009 e 2011).

“Na curadoria de dança da Mostra Funarte Mambembão 2012, tive a chance de considerar a imensa diversidade de criações de espetáculos no cenário nacional”, diz Regina Levy. Ela explica que procurou conciliar de um lado, dança, performance, movimento, e de outro, novas propostas de exibição, como recursos sonoros, de iluminação,  de vídeo e de utilização do próprio espaço.

Cia. Dezeo Ito

Oficinas, instalações e espetáculos – Mostra Nacional Funarte de Dança e Teatro – Mambembão 2012
Solos de dançacom recursos de vídeo
Concepção: Cathy Pollini. Interpretação: Guillaume Lauruol e Cathy Pollini
Oficinas de “Light Painting” aplicado à dança
Ministrantes: Cyrille Brissot,  Cathy Pollini e Valecia Ribeiro ( artista visual e pesquisadora da relação corpo-imagem)

Mais informações

www.dezeo-ito.com

dezeo_ito@me.com

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