Sondagens sobre corpos, sob a pele e através de configurações imprevistas

Veja a aqui o texto escrito pelos críticos Clóvis Domingos e  Mário Rosa, sobre o espetáculo Undercurrent – do nervo à unha, que esteve em cartaz na FUNARTE de Belo Horizonte (MG) de 24 de maio à 03 de junho de 2018.

 

 

O corpo tem sido questão central da filosofia e das artes contemporâneas já faz algum tempo. O que pode o corpo? A conhecida pergunta de Espinosa tem nos ajudado a investigar os modos de ação e de existência do sujeito moderno – sujeito esse mapeado, esquadrinhado, repleto de palavras, reiterado nas normas e instituído nos campos das subjetividades e da vida pública – assim como nos leva a pensar nas possibilidades de fissuras no corpo e nas relações que se abram para as multiplicidades que habitam as pessoas e o mundo em encontros imprevistos com forças que não cessam de nos cobrar outros jogos de pensar e de criar que investiguem a linguagem, reconheçam sua origem ficcional e sua tessitura na história. Jogos de pensar e criar que coloquem o corpo no centro da cena com as materialidades que o faz existência: tempo, memórias, imagens, carnalidades e contatos.

No interesse investigativo dessa matéria fina há quem se proponha sondar o que se encontra fora da molaridade constitutiva do sujeito voltando-se para zonas de virtualidades que reorientam questões das políticas dos corpos e dos afetos.

O que pode o corpo do esgotado? O que pode o corpo aberto para outras inscrições e narrativas? O que pode o corpo quando se fragiliza em sua organicidade eficiente e lucrativa? O que pode o corpo quando não se deixa fechar para as multiplicidades do que se pode experimentar ser? O que pode o corpo quando se permite vivenciar transversalidades e aberturas?

Muitas perguntas e tentativas de formulações de ideias surgem com o trabalho Undercurrent – do nervo à unha, do Grupo Anticorpos, apresentado em Belo Horizonte[1].

Nesse espetáculo que aproxima dança contemporânea, técnicas de contato improvisação e dança butô, percebemos intenções de ativações e deslocamentos de sentidos nas instaurações da presença dos corpos em variações, com atenção rigorosa às evocações de temporalidades e aos fluxos de energia emanados das relações e dos movimentos criados em cena.

Estes fluxos estão presentes num campo de composição que frequentemente expõe a materialidade do corpo e as forças em conflito que o habita, como na imagem inicial do espetáculo que apresenta um rosto radiografado que ri e canta. Neste caso, o referencial de uma organicidade do corpo captada na sua ossatura em raios-X é animado por algo que diz respeito à estranheza de um singular, ou melhor, ao estranho familiar que é apresentado como a dizer do que está sob a pele e que não pode ser esquadrinhado pelas formas científicas do saber. O que se reforça ali é um instigante princípio de exposição de forças que animam a vida no seu desassossego de errância, no seu incapturável do signo e é por aí que a proposta segue.

Segue numa conjugação de forças expressivas de corpos e imagens que nos trazem sensações do visível e do invisível em constituição de movimentos e formas que se avolumam e se metamorfoseiam, que se fragmentam e engendram o disforme, que se inserem no lusco-fusco e na sombra, que se manifestam na singularidade de estados de dissolução e presença, assim como inscrevem nos corpos isolados e em contato, figurações de matérias germinativas que rompem o contorno humano.

Nesse movimento, algo das forças de um agenciamento da terra é ativado expondo através dos corpos dos jovens dançarinos a coexistência de muitos tempos. O real e o virtual ali se desenham de um modo que nos causa estranheza, distância, curiosidade e atração. Tempos simultâneos, podemos dizer: do real registrado/capturado em imagens aos corpos inscritos no tempo de múltiplas memórias e devires.  Isso é realizado de forma interessante pela operação das partituras coreográficas criadas em consonância com os recursos audiovisuais e a iluminação. O que se cria tem algo de multiplicação, fantasmagoria, povoamentos, embates e variações.

Que ronda e varia com os flashes: os corpos.

Que parece brotar da terra: um corpo.

Que faz da pele e musculatura a massa que se manipula a partir das forças que entram em contato: corpos.

Que duplica, que se esconde, que confunde, que evade… A utilização em cena de um tecido-tela acaba por instaurar um límen no corpo do espaço cênico, jogando entre o dentro e o fora, entre presença carnal e imagem projetada, luz e sombra, corpo vivo manifesto e matéria morta numa coreografia que opera como radiografia trêmula e imprecisa que mais do que revela e fixa, cria zonas de indistinção.

Desta experiência, do sob e sobre a pele irredutível aos ordenamentos normativos do mundo, há uma positividade de uma nova política. E aí, algo de anticorpo se apresenta como evidência de combate, pois as imagens radiografadas, ao mesmo tempo em que expõem os fluxos que habitam a carne, também apresentam forças que orientam, ordenam e violentam os órgãos e os corpos. E é, nesse aspecto, muito interessante o movimento de dança na projeção da imagem de uma mão em raios-X entre a captura e as vazantes dos corpos em luta. Um embate possível entre o biopoder, a necropolítica e modos de resistência que se afirmam pela experiência de vivência naquilo que se entrevê como exuberância dos corpos-sem-órgãos e como potência de uma vida. Como resistir numa era farmacopornográfica na qual vivemos, segundo Paul Preciado, ao se referir às intervenções (ou serão feridas?) provenientes dos discursos e procedimentos médicos, midiáticos e mercadológicos sob nossos corpos e existências?

E nessa vida que da forma humana se abre para as fissuras e dissoluções vemos também em cena algo que se aproxima daquilo que se insinua como um devir animal, presente em cena pela composição de forças no corpo e pelas imagens e sonoridades criadas. Novamente, o irredutível, a virtualidade, o germinativo integrado aos movimentos que sugerem uma articulação entre ritualidade pagã e a força recalcada das pulsões.

A maneira como esta experiência de dança nos chega afirma a política complexa das afecções nos seus movimentos, sinuosidades, bloqueios, silêncios e horizontes. Esse texto crítico mesmo, como uma sondagem do que resta e também do que nos escapa dessa experiência intensa com um espetáculo que mais se ancora no campo da pré-linguagem, nos convidando a habitar um entre-lugar entre sensação e discurso.

O “o que pode o corpo” retorna para pensarmos nas possibilidades de existências e nas inscrições desejadas ou impostas a esta matéria frágil, forte e mutante. Talvez como possibilidade de intuirmos que uma forma de humano encontra-se no ultrapassado do seu limite e que nos cabe, mais do que entender, estar de corpo naquilo que foge ao império da razão como se alimentássemos a urgência de um porvir que se associasse por novas formas e encontros, por abertura ao mistério das coisas, pela erótica de um devir mundo naquilo que nos faz existir: campo que se configura e desconfigura seguindo as sutis e complexas redes de articulações ecológicas.

Espetáculo assistido em 31 de maio de 2018 na Funarte MG.

Ficha técnica:

Dança: Daniela Mara, Danilo Felisberto, Diego Abegão, Lucas Rodrigues, Pan Ribeiro e Vinícius Amorim.

Luz: Daniele Viola e Laura Reis.

Direção: Éden Peretta.

Fotos: Biel Machado.

 

[1] Espetáculo esteve em cartaz na FUNARTE MG nos dias 24, 25, 26, 27 e 31 de maio e 01, 02 e 03 de junho.

Original no endereço:

http://www.horizontedacena.com/sondagens-sobre-corpos-sob-a-pele-e-atraves-de-configuracoes-imprevistas/#_ftn1

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Vaquinha para Portugal! Apoie a ida do Anticorpos

Ajude-nos a ir para Portugal apresentar nosso espetáculo Undercurrent – do nervo à unha no Colóquio Performance e Intimidade, na Universidade do Minho, bem como diversas outras performances no Festival Noc Noc Guimarães em outubro. Ajude a arte de Minas Gerais a rodar o mundo!

Clique aqui

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Publicado o livro Corpolítico: corpo e política nas artes da presença

Capa para Corpolítico: Corpo e Política nas Artes da Presença

Confira aqui o PDF com o ebook publicado online pela editora UFOP.

 

Organizadores
Eden Silva Peretta
Berilo Luigi Deiró Nosella
Sinopse

O Simpósio H#1 – CORPOLÍTICO: corpo e política nas artes da presença, ocorrido em março de 2013 na cidade de Ouro Preto (MG), e proposto pelo grupo de pesquisa (CNPq) “Híbrida – poéticas híbridas da cena contemporânea” do Departamento de Artes Cênicas da UFOP, visou problematizar a partir de um olhar multidisciplinar a dimensão política inerente às artes da cena, potencializada pela presença corpórea – atual ou virtual – do artista. Para tanto foram organizadas mesas de debate composta por docentes da Ufop e convidados externos, entremeadas por espetáculos de teatro e dança, bem como por videoinstalações e intervenções performáticas no espaço urbano da cidade de Ouro Preto. A compilação dos presentes textos visa assim preservar a memória viva do evento, organizado também em torno da presença no Brasil do dançarino Butô Yoshito Ohno, em ocasião do projeto Winds of Times, ampliando e difundindo assim algumas reflexões vividas naquele encontro. O evento contou com o apoio da Reitoria da Ufop e da Prefeitura Municipal de Ouro Preto.

 

Anticorpos oferece oficinas e espetáculos no Andardebaixo, em Juiz de Fora (MG)

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No próximo final de semana (09-10/06), em evento organizado pelo CORPO COLETIVO e sediado pelo Andardebaixo, em Juiz de Fora (MG), o grupo Anticorpos – Investigações em Dança apresentará os seus dois últimos espetáculos criados em 2017: Undercurrent – do nervo à unha e Zoé – restos de uma vida nua. Além disso serão oferecidas oficinas de dança butô e contato improvisação. A programação pretende potencializar o diálogo, a reflexão e a produção no âmbito da dança, do teatro, da performance e dos estudos sobre o corpo.

Ingressos paras os espetáculos e inscrições para oficinas através dos contatos abaixo. Sujeito à lotação!
Telefone e whatsApp: 31 99328 5249 (Bárbara Carbogim)
e-mail: barbaracarbogim@hotmail.com

Fique atento à proposta dos COMBOS!
Pra cada evento: R$ 20,00
Combo com dois eventos: R$ 30,00
Combo com três eventos: R$ 45,00
Combo com quatro eventos: R$ 60,00
++ Para garantir sua reserva feita anteriormente com Bárbara Carbogim, o pagamento deve ser feito 30 min antes do primeiro evento escolhido em dinheiro vivo.

P R O G R A M A Ç Ã O

E S P E T Á C U L O S

SÁBADO.09
20h: UNDERCURRENT – DO NERVO À UNHA
O espetáculo compartilha fragmentos de um universo invisível aos nossos olhos mas extremamente óbvio à substância escura que escorre no verso de nossas peles. Sob nossas peles escorrem correntes profundas. Pulsões. Desejos. Ódios. Paixões. Abaixo de nossas peles se ergue um sujeito que antecede as diferenciações de raça, gênero e cor. Sob nossas peles pulsa uma vida nua que nos projeta em uma zona de indistinção, problematizando as dimensões normativas da sociedade. Despidos de nossas peles caminhamos entre a morte e a afirmação da vida.
Ficha técnica:
dança. daniela maia, danilo felisberto, diego abegão, lucas rodrigues, pan ribeiro, vinícius amorim
luz. daniele viola, laura reis
direção. éden peretta

Valor: R$ 20,00

DOMINGO.10
19h: ZOÉ– RESTOS DE UMA VIDA NUA
“Zoé” revela gestos da vida humana que são determinados como restos pela sociedade, trazendo como pano de fundo o conceito homônimo trabalhado pelo filósofo Giorgio Agamben. O espetáculo questiona a soberania do “eu” com imagens de duplos que caminham entre a animalidade e a humanidade, afim de criar uma cena tão simples quanto fantástica, em uma perspectiva surrealista. O espetáculo de dança-teatro apresenta-se em fragmentos, compondo assim uma cena imagética com colagens de sentidos subjetivos ao corpo, tendo influências técnicas e poéticas tanto da dança contemporânea, como do contato improvisação e do Butô.
Ficha técnica:
dança. diego abegão e vinícius amorim
encenação e luz. vinícius amorim
orientação. éden peretta
Valor: R$ 20,00

O F I C I N A S

SÁBADO.09
+ DANÇA BUTÔ
das 14:00 às 17:00, no n’OAndarDeBaixo.
A oficina visa compartilhar alguns princípios técnicos e poéticos desta intrigante manifestação cênica nascida no Japão nas décadas após o fim da segunda guerra mundial. Filha herética de seu tempo, carrega em seus fundamentos tanto elementos pré-modernos da cultura japonesa como a acidez do pensamento da contracultura europeia. A dança butô nos ensina assim possibilidades infinitas de experimentação de nossos corpos, apresentando-nos a potência existente no encontro entre carne, escuridão e poesia.
CONDUTOR:
Éden Peretta é professor do Departamento de Artes Cênicas da Universidade Federal de Ouro Preto e Doutor em Estudos Teatrais junto à Università di Bologna, Itália. Parte de sua tese foi traduzida e publicada em forma de livro pela editora Perspectiva com o título “O soldado nu: raízes da dança butô” (2015). Na Europa e no Japão participou de cursos e oficinas com diferentes artistas da dança butô, tais como Masaki Iwana, Atsushi Takenouchi, Yumiko Yoshioka, Tadashi Endo, Imre Thormann, Yukio Waguri e Yoshito Ohno.
Valor: R$ 20,00

Público alvo: Interessados pelos tema, com ou sem experiência.
Até 25 pessoas. Liberada para observadores.

DOMINGO.10
+ CONTATO IMPROVISAÇÃO: a pele como testemunha
das 14:00 às 17:00, no n’OAndarDeBaixo.
A oficina propõe um processo de investigação corporal a partir do toque, da escuta interna do movimento e expansão das noções de peso, centro, queda, entre outras pesquisas relacionadas. Estaremos buscando investir de sensações os movimentos, de percepções. Entrar em um território de investigações próprias do corpo de cada participante. São utilizados como “dispositivos disparadores”, para se investigar em dança nesta oficina, princípios da dança contato improvisação e também processos de composição em cena. Criando possibilidades de nos mover em planos diversos de composição através de nossos corpos no espaço. Atentaremos a um corpo possível, permeado pelo que o cerca, sendo a pele este suporte para entrar e sair de danças em contato improvisação, ampliando nosso olhar para e esfericidade do corpo no espaço.
CONDUTORA:
Pan Ribeiro, praticou capoeira, aulas de bio-dança, danças circulares, yoga e encontrou a dança contato improvisação em 2009. Estilo de movimento corporal que se identificou profundamente e segue aprofundando seus conhecimentos e estudos nesta área. Tem experimentado a dança como linguagem principal, tanto na área artística como terapêutica. Graduou-se em Artes Cênicas na Universidade Federal de Ouro Preto em 2015, atualmente desenvolve sua pesquisa de mestrado e participa como integrante desde o início do núcleo Anticorpos – investigações em dança, grupo que se propõe a pesquisa teórico-prática em dança desde 2012, também na Universidade Federal de Ouro Preto.
Valor: R$ 20,00

Público alvo: Interessados pelos tema, com ou sem experiência.
Até 20 pessoas. Liberada para observadores.

+ informações:
Vinícius Cristóvão 32 99137 5584

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Ocupação Anticorpos na FUNARTE – MG

O espetáculo Undercurrent – do nervo à unha foi selecionado no edital de ocupação da FUNARTE – BH, e estará em cartaz no Galpão 1 de 24 de maio a 03 de junho de 2018, de quinta à sábado às 20h e domingo às 19h.

 

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